Do Rio para Berlim: por onde andam as prostitutas?

Taz coluna 3

Minha terceira coluna olímpica publicada no jornal alemão Taz traz uma reflexão sobre a situação em que ficam as prostitutas em grandes eventos. Em português, seria assim:

Prostitutas: por onde elas andam

Nos primeiros dias de Rio 2016, um judoca medalhista belga acabou na delegacia após levar um soco do recepcionista de um hotel no qual ele adentrou nervoso, atrás de uma prostituta que teria roubado seu celular. A moça não foi encontrada e, ao ver a confusão em que tinha se metido (e perceber que a história não demoraria a viralizar nas redes sociais), o atleta decidiu não registrar a ocorrência. Na hora em que li a nota divulgada pela imprensa, comecei a fazer diversas perguntas a mim mesma: Será que ele não quis assumir que tinha estado com uma profissional do sexo por vergonha ou falso moralismo? Como será que está sendo esse período de festas para essas mulheres?

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Do Rio para Berlim, uma carioca estrangeira no Rio

Taz online

Hoje eu estou na versão online do jornal alemão Taz, com uma crônica do meu dia a dia na Olimpíada. Original (em português) abaixo:

Uma carioca estrangeira no Rio

Não há um dia em minha vida em que eu não me sinta uma estrangeira. Quando viajo para fora do Brasil, isso é normal. A cor da pele que destoa, o sotaque ao tentar a falar a língua do país entrega e, às vezes, até o jeito de andar mostra logo que aquele gingado não pode ser dali. Mas poucos entendem quando falo que sinto o mesmo em minha própria cidade. Viver intensamente os Jogos Olímpicos me fez chegar a uma conclusão: definitivamente, eu sou uma carioca-gringa.

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Do Rio para Berlim, engrossando o coro LGBT

Taz coluna 2

Minha segunda coluna olímpica para o jornal alemão Taz saiu hoje! Não sei se a tradução é exata, porque o espaço muda de acordo com o tamanho das palavras e o espaço reservado para elas. Mas a ideia é essa aí:

Engrossando o coro LGBT

Em meados de junho, um dos programas de maior audiência da TV brasileira transmitiu uma matéria sobre os crimes motivados pela homofobia, mostrando que os números no Brasil são alarmantes: a cada 28 horas, um homossexual morre de forma violenta; em 2015, o órgão que recebe denúncias de agressões contra qualquer integrante do grupo LGBT recebeu quase 2 mil ligações; desde o início de 2016, 132 pessoas foram mortas. Semanas antes de os Jogos Olímpicos começarem, nossa imprensa noticiou uma sequência de mortes e/ou espancamentos tão terríveis quanto retrógrados para os dias de hoje. Em uma análise curta e simplificada, ouso dizer que tais acontecimentos refletem o perfil de uma sociedade ainda cheia de mazelas: o Brasil é um país homofóbico e hipócrita, cuja legislação até hoje não considera crime esse tipo de preconceito.

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Do Rio para Berlim, o empoderamento das mulheres em tempos de Olimpíada

Taz coluna 1

Minha relação com a Alemanha começou quando eu era pequena e meu pai abriu uma loja de brinquedos junto com um sócio, um empresário de origem germânica de Niterói. Na adolescência, ganhei um amigo que uma vez por ano vinha nos visitar: sempre mostrávamos a ele um pouco do esporte, da gastronomia e, claro, da vida noturna da nossa cidade. Estive na casa dele, em 2007, e aquela foi minha primeira oportunidade de conhecer o país de perto e comer in loco uma das comidas que mais amo. Em 2010, conheci Andreas Behn, um jornalista alemão com ideias e referências muito parecidas com as minhas e, desde então, trocamos muita ideia sobre um pouco de tudo. Este ano, ele me convidou para escrever colunas durante a Olimpíada para o seu jornal Taz, um periódico diário “com uma visão progressista do mundo, criado como uma cooperativa e gerida por seus funcionários desde 1978” (palavras da colega colaboradora Suzana Velasco). Logo no meu primeiro contato com minha editora (e tradutora) de lá, Sunny Riedel, concluí que não falo alemão, mas falo a língua que estudei muito para conseguir escrever.

* Em alemão, as palavras são bem maiores do que em português. Por isso, foi preciso cortar parte do texto que enviei para esta primeira coluna. Coloco aqui a íntegra em português.

O empoderamento das mulheres em tempos de Olimpíada

Entre um set e outro do jogo entre Cuba e Rússia no estádio do Maracanãzinho, no último domingo, chamei a atenção dos rapazes da seleção argentina de vôlei: “Vamos, chicos! No sean boludos!”, gritei ao vê-los passar em direção ao vestiário, de onde sairiam minutos depois para disputar contra o Irã a segunda partida da segunda noite da Rio 2016. Senti um certo gostinho de vingança, pois foi a primeira vez que eu pude tomar a atitude e surpreender um “hermano” sul-americano em vez de reagir a uma fala dele, como tive que fazer durante todo o período em que morei na Argentina, em 2014, para uma pesquisa acadêmica que fez parte do meu mestrado. Não me esqueço… Fosse manhã, tarde ou noite, a cada esquina por onde passava, ouvia frases como: “Que linda que sos!”; “Casate conmigo, boluda!”.

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Uma resposta aos argentinos durante a Rio 2016: ‘Vamo, carajo!’

Olimpíada Rio 2016

Entendendo nada de Olimpíada, fui ontem para o Maracanãzinho achando que veria só Cuba x Rússia no vôlei. Eis que, em um dos intervalos, descubro que em seguida teria outro jogo: Argentina x Irã. Pirei! Dois países latino-americanos para torcer! Fui, então, comprar uma cerveja. E eis que a seleção argentina passou logo ali embaixo, pertinho de mim. Não me aguentei e fiz como eles faziam nos tempos em que eu estava em Rosário. Se lá muitos deles falavam (alto) “Que linda que sos!”, “Hola, rubia!” e coisas do tipo quando eu passava, aqui eu gritei mesmo, naquele portunhol esperto, para todos ouvirem: “Vamo, carajo! No sean boludos, por favor!” Durante a partida, quando os hermanos começaram a titubear, Marco disse que eu havia desconcentrado os caras. Que nada! Eu os incentivei! A vitória foi por 3 sets a 0. Viva!

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Rio 2016 surpreende por promover encontros e momentos deliciosos

Olimpíada Rio 2016

Confesso: Tô emocionada! Vou pagar todos os micos que nunca imaginei pagar e morder ao língua por ter ironizado os apaixonados por qualquer modalidade de esporte em diversos momentos da minha vida!

Olimpíada Rio 2016Heather e Willow, mãe e filha californianas, estão viajando sozinhas há um mês pelo Brasil. Bonito, Foz do Iguaçu, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Rio. De carro. Corajosas, empolgadas, felizes, elas me inspiraram na viagem de metrô do Largo do Machado até o Parque Olímpico. Na próxima vinda ao parque quero me vestir assim, só que com a bandeira do meu país!

Olimpíada Rio 2016Me vinguei! No melhor dos sentidos… Se no Japão posei para câmeras de vários japoneses, agora é a vez deles me cederem seu tempo para uns cliques. Ainda mais se o figura estiver debaixo de um sol de 30 e poucos graus vestido com um blaser e abanando seu leque. “Ah, leque, leque, leque, leque…”

E na Arena Carioca 1, antes de começar o basquete Estados Unidos x China, toca uma versão eletrônica de “Frevo Mulher”!

Olimpíada Rio 2016Pra fechar o dia e conseguir voltar pra casa, um café!

A “Leão” / Coca-Cola devia ou não me contratar como garota propaganda?

 

 

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MC Biel perde contrato com gravadora após polêmicas

MC Biel

Esses dias ouvi uma história sobre uma das primeiras entrevistas que Biel deu após ser contratado pela Warner Music. Respondendo as perguntas de um nordestino, o rapaz não parou um segundo de imitar o sotaque do jornalista, de repetir as gírias que o interlocutor usava e de caçoar do seu jeito de falar. Ouvi dizer que ele foi avisado de que essa não era a melhor forma de lidar com a imprensa, mas empresários, produtores e fãs seguiram endeusando o MC a ponto de ele não só não dar ouvidos (nesse episódio) como seguir errando. A molecagem imperou e o interesse dos “adultos” que poderiam ter ajudado o adolescente a tomar o rumo certo em sua carreira ajudou a destruí-lo. Agora, ele está colhendo o que plantou. Sinto um gosto meio bom de justiça, mas também sinto pena. E sinto muito pelo que ele vai viver nos próximos dias, tendo tido a oportunidade de se tornar uma oooooutra coisa nessa vida. Espero que o próximo passo não seja um suicídio ou um retorno de Biel como cantor evangélico.

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Silvero Pereira abre os olhos dos preconceituosos misturando Roberta Close com Caio Fernando Abreu na peça ‘BRTRANS’

BRTRans por Handré Garcia

Na última sexta-feira (29/07), vivi uma experiência inesquecível, ao assistir o espetáculo BRTRANS, do ator cearense Silvero Pereira. Pode vir algo de bom, fora do eixo RJ-SP? Claro que pode! E Silvero mostra isso com seu trabalho de pesquisa do universo de travestis e transexuais brasileiras. Com um espécie de lança flamejante, o ator cutuca no fundo de nossos olhos, esses que fazem questão de invisibilizar essas pessoas que estão nas esquinas de nossas cidades. Em cena, o corpo de Silvero dança um balé de diferentes dinâmicas, que começa com a mirada faceira da personagem Gisele Almodóvar à busca pelo fim do arco-íris, presente na declaração de Roberta Close. Com desenhos e rabiscos, Silvero dança o balé desconcertante de monstros espectrais que só ganham vida para a satisfação garantida de alguns hipócritas.

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Sobre a amizade, o dinheiro na calcinha e a gratidão

Carmélia Aragão

Conheci Carmélia Aragão em um curso que fiz na Puc durante meu mestrado. Ela, no doutorado, identificou-se com minha pesquisa e logo no primeiro dia disse que me daria um livro que iria me ajudar muito. Não era papo de carioca, afinal, a menina é cearense. Importado de sua terra, Pessoal do Ceará me ajudou muito mesmo. Tomamos um café na faculdade um dia. Num outro, descobri que ela estava passando uma temporada trabalhando em sua pesquisa em Montevideo, Uruguai, enquanto eu fazia o mesmo logo ali, em Rosário.

Um dia, a sempre sorridente Carmélia apareceu tensa numa dessas redes sociais. “Tive um problema com o banco e não consigo mais sacar dinheiro. Não estou saindo nem pra comer”, disse ela. Preocupada, fiz como os políticos brasileiros e enfiei nas partes baixas todo dinheiro que eu e meu “marido sin derechos” Handré Garcia tínhamos, peguei um ônibus para Buenos Aires e um BuqueBus que quase virou em meio àquela tempestade (com todos em volta vomitando pelo chão) e cheguei na terra de Mujica pra salvar minha amiga. Problema resolvido, dormimos juntas, falamos bobagens, rimos bastante pelas ruas e ela ainda me fez cantar no ônibus com um músico uruguaio… Enfim, com Carmélia endinheirada, eu me senti muito melhor.

Foi minha forma de agradecer pela sensibilidade musical cearense. Seguimos em contato, mas qual não foi minha surpresa quando, ao terminar sua tão suada tese, meu nome apareceu ali nos agradecimentos. “Mas, Carmelita, não ajudei em nada na sua pesquisa!” E ela: “Como não? Você atravessou a fronteira cheia de dinheiro pra me salvar!” Fiquei muito feliz com o gesto (ainda mais nesse momento em que tenho prestado muita atenção nessa tal de gratidão) e mais ainda ao vê-la brilhar hoje em sua defesa. Um orgulho danado, uma certeza de que esse laço é pra vida!

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Homem estupra menina deficiente em Copacabana e flanelinha chama a polícia

Caminhão Copacabana

Hoje cedo, li uma nota que dizia que um “produtor cultural” teria estuprado uma menina com deficiência mental e física dentro de um caminhão, em Copacabana. Fervi por dentro. Comecei a ter aquele desejo (de sempre) de fazer justiça com minhas próprias mãos, tipo encontrar o filhodaputa e arrancar as coisas dele com uma faca de cozinha mesmo.

Ao chegar de tarde em Copacabana para minha sessão de Acunpuntura, meu parceiro flanelinha chegou na minha janela e falou, bem pertinho de mim: “Tá vendo aquele caminhão? Sempre achei o dono gente boa. Ele deixava eu dormir aí na caçamba no fim de semana. Hoje cedo cheguei, vi a caçamba aberta e achei que ele tinha esquecido. Quando abri pra ver, o filhodaputa estava com a garota especial que vive aqui do lado. Não aguentei ver aquilo e não fazer nada. Chamei a polícia e os camaradas que trabalham aqui comigo na rua e o pessoal meteu a porrada nele. A polícia levou ele. Me disseram agora que a esposa do cara, que tá com uma criança de colo, se negou a dar informação pra polícia. Ela tá defendendo ele e vai acabar presa como cúmplice. Tô com muita raiva!”

Fiquei em choque. Primeiro por perceber que em menos de seis horas da leitura, eu estava na cena do crime (eu e um monte de repórteres). Depois, por ouvir detalhes de uma história horrorosa que preferi censurar aqui por não ter estômago para reproduzir. E também porque isso me fez de novo (como tem feito muito este ano) achar que a vida real é uma merda para quem não é provido de alguma coisa (dinheiro, beleza, fama etc). Por último, porque não admito que uma mulher, por mais apaixonada que seja, defenda um monstro como esse. Cadê a tal sororidade???? Fiquei tentando entender… Só pensava no que ela podia estar pensando… “Ai, eu não devia ter me negado a transar com ele naquela noite em que o bebê não parava de chorar”; “Ai, coitado, a gente não transa mais todo dia como no início”; etc.

A única coisa que me fez bem foi saber que aqueles caras da rua fizeram o que eu queria muito fazer com cada filhodaputa que faz isso com uma mulher. Agradeci ao meu parceiro por conseguir promover o flagra e por dar uns tapas no cara.

Mas, sério, gente… Era pra eu estar dormindo, mas estou revoltada até agora…

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