Pílula biográfica: Margareth Menezes, a primeira negra a levar essa música baiana de hoje para fora da Bahia

Atriz de teatro e compositora ainda em formação, Margareth Menezes surgiu como intérprete da música Faraó (Divindade do Egito), um divisor de águas no carnaval de 1987. De autoria de Luciano Gomes, o primeiro samba-reggae do Brasil abriu caminho para a primeira cantora negra sair da Bahia para o Brasil e para o mundo. Maga recebeu um convite da gravadora multinacional PolyGram e foi uma das primeiras cantoras da Bahia a ser contratada, junto com Luiz Caldas, a Banda Cheiro de Amor, Carlos Pita e Cid Guerreiro. O hit abriu caminho também para ela, pouco a pouco, começar a registrar canções de sua autoria em seus álbuns: seus primeiros rabiscos gravados apareceram no álbum Kindala (PolyGram, 1991), o terceiro lançado no Brasil e o quarto em sua carreira (em 1990, Elegibô foi lançado pela apenas nos Estados Unidos e no Reino Unido).

Margareth é premiada, reconhecida internacionalmente, mas no Brasil nunca teve o mesmo espaço midiático e os mesmos cachês que cantoras como Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Cláudia Leitte, “fabricadas” pela cena baiana entre os anos 1990 e 2000, nessa ordem (a única essencialmente cantautora entre as três, Daniela atravessou a fronteira baiana em 1992 com o hit composto por ela e Tote Gira O Canto da Cidade; Ivete, fez o mesmo à frente da Banda Eva, a partir de 1993, cantanto sucessos como Levada Louca e, em carreira solo, explodiu em 1999 com a canção romântica Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim; Cláudia Leitte surgiu como líder da banda Babado Novo, em 2001, com o hit Amor Perfeito, e se lançou em carreira solo em 2008 com Exttravasa). O verbo “fabricar” escolhido para ligar essas mulheres ao mercado que as alçou à fama nacional parece pejorativo, mas não é se compreendido pela ótica de Margareth Menezes – que traz à luz uma história já contada em livros, mas com um olhar crítico necessário e coerente com as discussões atuais.

Antes dessa massificação da música baiana, tínhamos a música que o povo fazia, com influências naturais do que tínhamos na terra. Depois que veio o trio elétrico e chegou a vez da música comercial, os empresários começaram com essa visão de transformar a Bahia em um carnaval o ano todo. Quando a gente mergulha fundo no axé, vê uma ponte que vem dos blocos afro e outra que vem dos trios elétricos. Tem formação de trio elétrico com músicos que, antes, eram de bandas de rock, como é o caso do Asa de Águia e do Chiclete com Banana. Com o fortalecimento do carnaval, muitas dessas bandas migraram para cima dos caminhões e resolveram fazer a música dançante que era feita por Dodô e Osmar, os criadores do trio elétrico, por Armandinho com seu frevo, e pelos Novos Baianos, que também foram grandes influências para a criação disso, que tem essência tropicalista. Tem um livro chamado “Banda de Milhões” (Tom Gomes, Editora Nova Leitura, 2011) que conta a história de cinco músicos que, com o fim de sua banda, viraram executivos de gravadoras. Um dos capítulos conta como empresários da Bahia, em uma reunião com um ou mais deles, propuseram fazer o estado virar a terra do carnaval o ano inteiro. Por isso houve esse grande investimento e, consequentemente, o reinado da Axé Music. Existiu um projeto e muitos de nós, artistas baianos, não estávamos dentro dele. Eu não pertencia a essa circuito, estava na cena independente. Hoje, eu reflito sobre isso, quando me perguntam, e me dou conta de que minha carreira existe por causa de um investimento próprio. Tive uma ideia própria e sempre fui driblando as dificuldades, apostando em uma música que eu tinha possibilidade de fazer, com minha identidade. Eu sempre apostei em algo que desse a possibilidade de as pessoas se identificarem.

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