Medos e memórias da avó dão o clima ao clipe de ‘De que tens medo’

Posted by Chris Fuscaldo Category: Mundo Ficção

Medo é um estado emocional que surge em decorrência da consciência do perigo, ou seja, quando nos sentimos ameaçados de alguma forma. Involuntariamente, o corpo sofre reações provocadas por compostos químicos. É algo que não conseguimos controlar e que não é nada agradável de se sentir. Pelo menos para mim, tais sensações sempre foram bastante incômodas. Inconscientemente, eu cresci colecionando medos. Medo de altura, medo do escuro, medo de clausura. Medo da opressão, medo da violência, medo do não. Se herdei tantos desses medos de uma das minhas avós, foi por causa da outra que aprendi a lutar contra eles.

Filha de portugueses, Moema era uma mulher simples até seu marido, Francisco, filho de italianos, prosperar junto aos irmãos com a fábrica de macarrão que os pais dele fundaram na cidade de Niterói (RJ). Casados desde o início da década de 1950, meus avós construíram uma casa cinematográfica, viajaram o mundo e tornaram-se figurinhas fáceis nas colunas sociais da cidade. Cresci acompanhando minha avó para lá e para cá em um estado de empoderamento eterno. Até quando costurava ou fazia tricô, não se colocava em uma posição inferior a dos homens da casa. Nem quando meu avô faleceu – eu tinha aproximadamente dez anos – vi minha avó descer do salto ou desfazer o penteado.

Foi ela quem descobriu em mim um certo gosto para uma certa moda. Foi ela quem me apresentou o mundo lapidado da etiqueta, mesmo mostrando que seguia carregando em seu comportamento resquícios de sua formação bruta. Foi ela quem me levou em minha primeira viagem à Europa, abrindo para mim as portas do mundo. Eu cresci, rodei o mundo, vivi, aprendi, lapidei a brutalidade de que não gostava, minimizei os exageros da educação formal. Na virada da adolescência para a vida adulta, afastei de mim ranços de um tempo e espaço que nunca vivi. Com toda a tentativa de minha avó de ser uma mulher à frente do seu tempo, havia barreiras intransponíveis naquele universo machista e preconceituoso no qual ela foi criada. E muitas delas, não por vontade própria, ela não conseguiu ultrapassar. Imagine um mundo em que não se falava em assédio, estupro, não é não e depressão e no qual não existia lei contra o racismo nem contra a violência contra a mulher?!

Criada em outro momento e com muito mais liberdade – de cara, a de estudar e escolher o que queria ser – passei a relativizar as coisas mais do que ela conseguia. Eu mantive meu equilíbrio em relação aos meus medos e em minha luta contra eles. Por causa disso, fui questionada, criticada e até afastada por minha avó. Virava e mexia, estávamos debatendo valores distintos sobre certas coisas e assuntos atuais nos quais eu não conseguia inseri-la como fazia com minha outra avó.

Às vezes perto, às vezes longe, vi minha avó envelhecer. Com a fragilidade do corpo e o início do alheamento da mente, comecei a ver também o seu empoderamento murchando. Aproximei-me o máximo que pude nessa hora. Minha avó perdeu o próprio norte, entregou-se à sorte. Minha avó passou a ter medo e se apegou a mim como nunca dantes. Em seu devaneio, tornei-me a melhor neta do mundo. Logo eu, a de empoderamento moderado! O dela, de repente, ficou como o meu. Talvez tenha sido a primeira vez na vida em que minha avó se despiu de tudo o que vestiu na vida se tornar Moema Fuscaldo. Talvez, para se defender de seu tempo e espaço, precisou provar que não tinha medos quando, na verdade, eles sempre estiveram ali e apareceram quando o corpo se fragilizou.

É sobre isso que De que tens medo fala. Composição minha em homenagem a minha avó, a canção está no álbum Mundo Ficção (saiba mais) com arranjo e produção de Juan Cardoni. No clipe, roteirizado por mim e dirigido por Cristiano Cardoso, sou eu quem desnudo as memórias de Moema Fuscaldo em sua própria casa. Minha avó ainda vive e, apesar de não se lembrar de muita coisa, reconheceu-se em seu próprio quadro e chorou ao assistir ao vídeo pela primeira vez. “Há motivos pra chorar”, canto eu. No dia do aniversário de 89 anos de Moema Fuscaldo, 12 de junho de 2019, há motivos para celebrar o amor de avó e neta também.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Required fields are marked *.

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>