‘Saudade’ é palavra que só o português tem

…é palavra que você não tem
Defeito é umbigo que você não vê
Amor é a parte em que você não crê
Respeito e é por isso que você não vem

Quando compus Selfie-se Quem Puder (ouça), estava um pouco indignada com o fato de, na língua espanhola, não existir a palavra “saudade”. Tinha acabado de voltar de uma temporada de três meses morando e estudando em Rosário, na Argentina e, lá, comecei a traçar as primeiras linhas do que depois se tornaram as canções do meu primeiro álbum autoral, Mundo Ficção. Já no Brasil, eu enviava mensagens para os amigos que fiz na cidade e só tinha como opção escrever “Te extraño!”. Funcionava, mas não era exatamente aquilo que eu queria dizer. Quando escutava a frase, nos áudios enviados por eles pelo WhatsApp, também não caía tão bem. Sei lá, parecia que a frase carregava uma certa frieza. Qual não foi minha surpresa ao perceber que tal sentimento permeia também algumas falas do documentário Saudade, que chega aos cinemas esta semana.

Dirigido por Paulo Caldas, o filme investiga o significado da palavra em viagens por países de língua portuguesa através da fala de historiadores, escritores, compositores, coreógrafas, artistas plásticos etc (Arnaldo Antunes, Siba, Déborah Colker, Jomard Muniz de BrittoJosé Celso Martinez, Alex Flemming e muitos outros artistas do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde). Entre tantos depoimentos interessantes, para mim, destacou-se o de uma atriz alemã – que fala português – que contou que só entendeu a palavra “saudade” quando ouviu a música brasileira pela primeira vez, durante uma viagem a Nova York.

Embora digam por aí que “saudade” vem do latim “solitatem”, que significa solidão, o escritor Milton Hatoum defende a hipóteses de que os árabes teriam traduzido a “melancolia do grego” (eles chamavam de “melas kholé” ou “bile negra” o temperamento melancólico da personalidade humana) para sua língua como “saudah”, que teria originado a “saudade” portuguesa. O historiador Durval Muniz traz da religião uma explicação: temos saudade porque fomos expulsos do paraíso e estamos sempre querendo voltar. Fiquei especialmente encantada com a fala da cantora africana de Cabo Verde, Mayra Andrade, que disse que, para se ter saudade, é preciso ir embora. Sem ir embora, não se tem como querer voltar. Quem fica, padece sem saber como é a vida lá fora e o sentimento de nostalgia que a saudade causa. Curti também saber que, em alemão, “saudade” seria traduzido de duas formas, que seriam as duas palavras que querem dizer “a dor do mundo” (acho que Schmerz der Welt) e “a dor de casa” (acho que Hausschmerz). Em inglês, existe “homesick”, que seria essa saudade específica da casa ou do ambiente onde a pessoa viveu.

Uma coreógrafa da qual não lembro o nome falou que não sente saudade de nada. Como se tivesse  treinado a si própria para isso, ela diz que tem medo de tal sentimento a fragilizar e tirar sua força. Achei que faz bastante sentido, pois a saudade amolece a gente. Foi, inclusive, o sentimento que me tirou da correria do dia a dia, me fez parar um pouco para pensar e me inspirou a reclamar de os argentinos não terem a apalavra “saudade” em seu dicionário (bem como todos os outros povos do mundo). Como o cineasta Karim Aïnouz mesmo diz, no documentário, “quem sente saudade fica menos sólido”.

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