Do Rio para Berlim, o empoderamento das mulheres em tempos de Olimpíada

Minha relação com a Alemanha começou quando eu era pequena e meu pai abriu uma loja de brinquedos junto com um sócio, um empresário de origem germânica de Niterói. Na adolescência, ganhei um amigo que uma vez por ano vinha nos visitar: sempre mostrávamos a ele um pouco do esporte, da gastronomia e, claro, da vida noturna da nossa cidade. Estive na casa dele, em 2007, e aquela foi minha primeira oportunidade de conhecer o país de perto e comer in loco uma das comidas que mais amo. Em 2010, conheci Andreas Behn, um jornalista alemão com ideias e referências muito parecidas com as minhas e, desde então, trocamos muita ideia sobre um pouco de tudo. Este ano, ele me convidou para escrever colunas durante a Olimpíada para o seu jornal Taz, um periódico diário “com uma visão progressista do mundo, criado como uma cooperativa e gerida por seus funcionários desde 1978” (palavras da colega colaboradora Suzana Velasco). Logo no meu primeiro contato com minha editora (e tradutora) de lá, Sunny Riedel, concluí que não falo alemão, mas falo a língua que estudei muito para conseguir escrever.

* Em alemão, as palavras são bem maiores do que em português. Por isso, foi preciso cortar parte do texto que enviei para esta primeira coluna. Coloco aqui a íntegra em português.

O empoderamento das mulheres em tempos de Olimpíada

Entre um set e outro do jogo entre Cuba e Rússia no estádio do Maracanãzinho, no último domingo, chamei a atenção dos rapazes da seleção argentina de vôlei: “Vamos, chicos! No sean boludos!”, gritei ao vê-los passar em direção ao vestiário, de onde sairiam minutos depois para disputar contra o Irã a segunda partida da segunda noite da Rio 2016. Senti um certo gostinho de vingança, pois foi a primeira vez que eu pude tomar a atitude e surpreender um “hermano” sul-americano em vez de reagir a uma fala dele, como tive que fazer durante todo o período em que morei na Argentina, em 2014, para uma pesquisa acadêmica que fez parte do meu mestrado. Não me esqueço… Fosse manhã, tarde ou noite, a cada esquina por onde passava, ouvia frases como: “Que linda que sos!”; “Casate conmigo, boluda!”.

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Se por um lado, dependendo das palavras usadas e da entonação dada, os dizeres podem ser encarados como elogios e os elogios podem ser ótimos para a autoestima de qualquer mulher, por outro, uma cantada proferida por um rapaz pode não parecer tão singela assim, podendo ser encarada até mesmo como assédio. E isso não acontece só com as falas. Um olhar também pode se tornar algo muito agressivo. Na semana passada, na véspera da cerimônia de abertura da Olimpíada sediada pelo Rio de Janeiro, fui vítima de um.

Sentada em uma mesa de um bar disposta na calçada do meu bairro, enquanto esperava uma amiga, vi um homem freiar seu carro, pará-lo no meio da rua, abrir a janela e ficar me olhando. Muitos segundos se passaram (acho que uns 15) e, apesar de eu não encará-lo da mesma maneira, ele não saiu dali. Resolvi então enfrentá-lo, ainda com alguma educação. “Você está precisando de alguma informação?” Assustado com o fato de aquela mulher falar olhando nos seus olhos, ele respondeu com alguma grosseria: “Não posso te olhar, não?” Empoderada, respondi: “Se eu estivesse correspondendo ao seu olhar, sim. Mas como não estou, acho que você deveria ir embora!” Revoltado por não ter conseguido acuar uma mulher, ele acelerou e saiu cantando pneu.

No Rio de Janeiro, ou talvez no Brasil como um todo, há um movimento em evolução – chamado por nós de “empoderamento” das minorias – que vem atraindo as atenções desde que Luís Inácio Lula da Silva assumiu a presidência do país, em 2003, e ganhando mais força desde a eleição em 2011 de Dilma Rousseff, nossa primeira presidenta do sexo feminino. Nós, mulheres, ganhamos leis (por exemplo a Lei Maria da Penha, um dispositivo legal para aumentar o rigor das punições sobre crimes domésticos), ganhamos voz.

Muitas ainda não sabem que podem gritar, responder, reagir. Mas várias já entenderam que podemos ser tão ou mais poderosas quanto os homens. Não é à toa que, nessa mesma Olimpíada em que mostrei aos argentinos que aqui é melhor eles se comportarem, três camareiras contratadas para trabalharem nos quartos da Vila Olímpica, onde está hospedada a maior parte dos atletas da Rio 2016, conseguiram levar para a cadeia dois boxeadores: separadamente, tanto o marroquino quanto o da Namíbia tentaram forçar o ato sexual com elas, e, agora, estão sendo acusados de estupro.

Taz coluna 1

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