Seriados de TV, um trauma em minha vida

Desculpem-me, leitores do GarotaFM, mas hoje não falarei de música e sim de seriados de TV.  A culpa é da leitura que fiz no último dia 13 de fevereiro, no Jornal “O Globo”, da ótima crônica de Arnaldo Bloch, intitulada “A Minha Novela”. Nela, o jornalista inicia seu texto dizendo que passou alguns anos assistindo a tudo que era série de TV e que, um dia, resolveu parar e retornar ao antigo hábito de acompanhar novelas.

Voltei no tempo. Sou da geração dos seriados de TV, a maior parte deles produzida nos Estados Unidos, entre os anos 50 e 60. Aqui no Brasil, assistíamos a tudo em preto e branco, pois a TV colorida só chegaria a nós na década de 1970. Perdi – ou ganhei? – horas de minha vida sentado diante de um aparelho de madeira enorme da marca Mullard na sala de nossa casa, sozinho, com minha irmã ou com amigos, sofrendo por um final feliz para o protagonista da série em questão. Só hoje reconheço que seriado era “filme de herói marcado”, ou seja, o protagonista sempre saía vitorioso. Ou não??!!

Depende!

Alguns, eu já assistia na certeza de quem sairia vitorioso ao final de cada episódio semanal. Entre eles estavam: Aventuras Submarinas, Patrulha Rodoviária (não confundir com Patrulheiro Rodoviário, o primeiro seriado feito no Brasil, protagonizado por Carlos Miranda, o patrulheiro Carlos, no qual todos os carros eram da marca Sinca, fosse o do bandido, o do mocinho, os da polícia etc.); Rin-tin-tin, Lassie (nesses dois últimos, os protagonistas, com certeza recebiam os maiores salários, tinham focinho, rabo e quatro patas); Ivanhoé, Lanceiros de Bengala, Bat-Masterson, O Menino do Circo (o protagonista desse viria alguns anos depois a se relançar no mundo artístico como baterista da banda The Monkees); Papai Sabe Tudo, Jeannie é um Gênio, A Feiticeira (os três últimos mais dedicados às meninas e mocinhas, pois tratavam de temas “água com açúcar”).

Houve, no entanto, um seriado lançado aqui no Brasil em 1963 que trouxe um novo conceito e que me deixou cheio de dúvidas quanto à vitória certeira e garantida do protagonista: O Fugitivo. Estrelado por David Janssen no papel principal, a série abordava um tema polêmico e real, acontecido anos antes nos Estados Unidos. Retrava em 19 capítulos a história de um médico (Dr. Richard Kimble, no seriado) que fugiu ao ser acusado de matar sua esposa após um discussão doméstica acalorada ouvida por vizinhos. Sustentava que deixou-a em casa só, após a confusão, e foi para a rua beber uns drinks para relaxar e que, ao retornar, deparou-se com um homem, possivelmente um assaltante, que  não tinha um dos braços, dado que, em primeira análise, pareceu piada para a polícia, para a mídia e opinião pública, afinal, eles teriam entrado em luta corporal, segundo o médico e o homem de um braço só o teria dominado e fugido. E olha que o Dr. Kimble um sujeito jovem e forte… Provavelmente não consideraram a possibilidade de Kimble estar “chapado” de álcool).

Pois bem… Em cada um dos 19 capítulos, ele corria pelos Estados Unidos, de cidade em cidade, de estado em estado, trabalhando como qualquer coisa – motorista, estivador, garçom, ajudante de obra, etc. – para conseguir o pão de cada dia, sempre atrás do tal homem de um braço só. Buscava provar sua inocência. Em cada episódio, semanal, o seriado bastante romanceado o colocava em situações diversas, sempre com mulheres bonitas lhe desejando e lhe ajudando a fugir do implacável policial que o perseguia, Tenente Gerard, e daqueles que o reconheciam e o denunciavam.

O diferencial era que, como eu não conhecia a história verdadeira e muito menos o final dela, a cada episódio eu ficava tenso na poltrona da sala sem saber se ele iria se dar bem. Aquele seriado para mim não tinha herói definido, o que eu só iria saber no último capítulo, (ATENÇÃO PARA O SPOILER!) quando ele, ajudado pelo Tenente Gerard, que acabou por dar-lhe crédito, localiza, embosca, luta (apanhou “pacas”, mas venceu) e mata acidentalmente o verdadeiro assassino de sua esposa, ganhando a procurada liberdade.

Vocês querem saber o melhor dessa minha história?

Dos 19 capítulos, assisti a 18! E sabe qual foi o que eu perdi? O último! Isso mesmo… Meu pai marcou nossa viagem de férias para a fazenda de meus avós em Minas Gerais e lá, na pequena cidade de Cabo Verde, a população nem sonhava em saber o que era uma TV, pois o aparelho não havia chegado ainda no interior. Eu tinha 12 anos naquele 1963 e fiquei muito traumatizado! Nunca mais quis saber de seriados. Soube do final por amigos, mas não consegui assistir ao 19° capítulo. Lembrando aos superjovens: não havia nenhum tipo de aparelho de gravação e/ou registro de imagem e áudio disponível para o grande público. Internet, nem sonhando…

Mas, como diz o ditado, “quem espera sempre alcança” e, em 2015, ganhei de meu filho a coleção completa em DVD da série O Fugitivo. Sem precisar fazer análise, superei meu trauma de 52 anos e ainda pude rever todo o seriado. E mais, o último capítulo dessa coleção, intitulado O Julgamento, foi o único que veio a cores, em inglês e legendado, do jeito que eu gosto! Tenho ojeriza a filmes dublados! Já revi umas 20 vezes para tirar o atraso.

O embate entre o médico e o homem de um braço só

O embate entre o médico e o homem de um braço só

Que trauma que nada. Estou curado!

Acho que vou voltar aos velhos tempos e assistir agora a Games Of Thrones, Walking Deads, Revenge, Dr. House e o que mais vier…

Viva a tecnologia! Viva o mundo digital!

Por favor, não contem para ninguém, mas na semana passada comprei um DVD do National Kid.

Abaixa o pano!!!!

E, para quem quer experimentar o que eu não saboreei na infância, aí embaixo estão os dois últimos capítulos em um mesmo vídeo:

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