Clara Valente: nova na cena brasileira e bem recebida na Argentina

Posted by Chris Fuscaldo Category: Shows e eventos Tag: ,

E eis que uma ex colega de trabalho me marca em uma publicação do Facebook, mais precisamente em uma filipeta virtual de um show que iria acontecer no dia seguinte, em Rosário. Leio a mensagem e lá está escrito que sua amiga Clara Valente estaria na cidade argentina onde estou vivendo há mais ou menos dois meses e meio (e de onde sairei no início de janeiro) para apresentar o repertório do seu disco de estreia, Mil Coisas. Menos de uma hora depois, uma amiga rosarina me manda um Whatsapp para comentar que leu no jornal sobre o show de uma cantora brasileira na Plataforma Lavardén (um lugar lindo com um terraço maravilhoso) e lembrou de mim. “Claro que eu vou!”, respondi na hora.

Clara Valente : Divulgação Plataforma LavardénDesde que cheguei aqui, venho dizendo que uma das coisas que sabia que sentiria mais falta durante esse intercâmbio de três meses é a música do meu país. Tive a sorte de assistir a Caetano Veloso assim que completei um mês em Rosário. No sábado (20/12), teria a chance de observar a desenvoltura de uma cantora nova na cena musical brasileira perante o público rosarino. E, claro, ver também a recepção dessa plateia.

Clara Valente : Divulgação Plataforma Lavardén 3Fui meio descrente, confesso. Não tinha escutado falar ainda da moça. Tudo bem que, apesar de seguir atuando no meio da música, estou um pouco mais afastada da cena que está se abrindo para os novos (faz um ano e meio que ando muito enrolada com o mestrado e com o livro que estou escrevendo). Mas, mesmo assim, sei mais ou menos os nomes que andam em destaque. E o de Clara não tinha aparecido na minha vida ainda. Descobri uma cantautora de altíssimo nível que o Brasil precisa conhecer.

Clara Valente na Plataforma LavardénClara Valente canta lindamente, tem muito bom gosto para a escolha das releituras que compõe seu repertório, é dona de canções que ainda não me sinto à vontade para comentar (visto que ainda não ouvi o disco), mas me parecem super de acordo com a proposta que ela traz para a cena e, além de tudo, é uma simpatia no palco. Mesmo arranhando um portunhol safado, comunicou-se muito bem com uma plateia super interessada (coisas da Argentina que eu amo e que falta no Rio de Janeiro) e deu todos os recados que quis dar. Fora isso, a artista carioca tem uma banda formada por feras: Mauricio Pacheco na guitarra e direção musical, Donatinho nos teclados e Guilherme Gautreaux na bateria e programações.

Clara Valente na Plataforma LavardénMil Coisas é um disco autoral e a maioria das canções são voltadas para a temática feminina, contou-me Clara, no camarim, antes do início do show. Ao chegar na Plataforma Lavardén, esbarrei com a cantora no corredor e me apresentei. Logo fui convidada a continuar o papo em seu recanto, onde estavam os músicos. Surpreendi-me de cara com a presença de Maurício e Donatinho, cujas trajetórias venho acompanhando há tempos (Maurício faz parte da banda de Vanessa da Mata e Donatinho saiu para tocar seu projeto dolo). Papo bom com todos, acabei testemunhando o preparo do set list. “Essa Feminina é de Joyce?”, perguntei para Clara. “É! Incluí essa música no meu repertório, inclusive o do disco, porque ela foi a primeira cantora a explorar temas femininos na primeira pessoa. Acho que minhas músicas seguem um pouco essa linha”, disse. Já no palco, as músicas de Clara soaram muito bem, mas o destaque da noite foi o tango que ela apresentou sozinha, ao piano, intitulado Ao Cais e gravado em seu álbum com o apoio de instrumentistas da Orquesta Típica Fernández Fierro.

Clara Valente : Divulgação Plataforma Lavardén“Fiz uma música depois de um término de um relacionamento e, pela carga dramática, ficou parecendo um tango. Vim a Buenos Aires gravar com a Orquesta Típica Fernández Fierro porque queria um tango argentino. Vou tocar, então, mi tango brasileño“, disse Clara à plateia.

No show, percebi que, em relação às releituras, a pegada é mais forte do que imaginei quando vi a lista de músicas no camarim. Joyce é uma militante da bossa nova. Com sua super banda, Clara é o oposto: mistura bossa, samba, suingue, pop, rock, eletrônica etc. Passando ainda por Moska (O Último Dia), Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro (O Canto das Três Raças) e Raul Seixas (Metamorfose Ambulante), Clara e companhia misturam leveza e peso sem perder a unidade.

Clara Valente no Plataforma LavardénDepois do show, fiz questão de acompanhar os passos Clara Valente e confirmei a desconfiança de que os argentinos amam mesmo a música brasileira e se abrem muito para o desconhecido. Clara já tinha feito show em Buenos Aires na semana anterior e a imprensa argentina abriu as portas para ela. Fiquei orgulhosa do meu país e agradeci aos céus pelo presente que eu ganhei: em um momento em que estava começando a sofrer a melancolia típica da Argentina por saber que estou prestes a ir embora, o show de Clara representou uma transição entre o mundo que experimentei viver e o mundo no qual sempre vivi (e amo e do qual estou morrendo de saudades). Meu último sábado em Rosário não podia ter sido melhor e me despeço da cidade com o “tango brasileño” de Clara e Chango Spasiuk (o único argentino que tive a oportunidade de assistir) na cabeça.

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