Aprendi com Jorge Davidson que rádio não é toca-discos

Vinil do NeuEstamos no final de 1972, edifício Brasília, fincado na rua da Conceição 99, Centro de Niterói, uma região que até hoje é patrimônio das mulheres de programa que rodam bolsinhas na calçada. No 10º. andar funcionava a primeira rádio de rock do Brasil, a Federal AM, na frequência de 1090 khz. Pertencia ao grupo Manchete, era dirigida por Carlos Siegelman e produzida por Jorge Davidson e Marcos Kilzer.

Eles fizeram uma promoção chamada “Verão 73”. Ouvintes mandavam roteiros de programas sobre bandas preferidas e o melhor do mês ganhava um cachê simbólico. O meu, sobre The Who, levou o prêmio. Eu tinha apenas 17 anos e sentei com Marcos e Jorge propondo trocar meu cachê por um estágio na rádio que eu tentava ouvir direto. Tentava porque a potência de 250 watts (1/4 de kilowatt) mal chegava em Icaraí. Para se ter uma ideia, a Mundial e Globo despejavam 200 kilowatts (200 mil watts) de potência cada.

Comecei o estágio. Jorge e Marcos me “internaram” em um estúdio onde passei 15 dias, em sessões que duravam seis horas por dia, ouvindo dezenas e dezenas de álbuns. Foi ali que conheci o Neu, Can, Amon Duul, Faust, Tangerine Dream, Mott The Hoople e vários outros. Vários. Vi quando Marcos Kilzer recebeu uma fitinha de rolo com o que viria a ser o primeiro LP do Secos & Molhados. Pedi autógrafos aos integrantes do Terço que foram à rádio, que chegou a quinto lugar na Zona Sul do Rio. Se a Manchete tivesse investido com certeza teríamos uma fortíssima emissora.

Depois de meu saboroso internato no estúdio, Jorge me deu uma planilha para que eu fizesse a primeira programação. Claro, fã ardoroso, botei The Who quase que de duas em duas horas. Foi o primeiro esporro que levei em minha vida profissional. Davidson pegou a programação e disparou: “Rádio não é toca-discos, Bonitão! Presta a atenção! Rádio não tem fã clube”. Ele e Kilzer se tratavam assim, usando esse “Bonitão”. Jorge não deve lembrar do episódio já que esporro só não esquece quem leva, mas foi uma lição que carrego até hoje.

Devo muito a Davidson e Kilzer. Foi com eles, a bordo da Federal AM, que acho que aprendi a fazer rádio. Infelizmente, em meados desse mesmo 1973, cheguei para trabalhar um dia, já com a carteira assinada como programador que guardo com orgulho até hoje, quando percebi o maior baixo astral no ambiente. Marcos e Jorge me disseram que a cúpula da Manchete decidira transformar a Federal numa rádio popularesca. Lembro que perguntei ao Jorge: “A partir de quando?” E ele respondeu: “Amanhã de manhã, Bonitão”. Meia hora depois chegava Paulo Bob para assinar um contrato para fazer um programa chamado “Falando da Rua”. Sabem como?

Os caras plugaram um microfone na rádio no 10º andar e puseram um fio de 40 metros. Esse fio chegava na calçada e, de lá, Paulo Bob (por quem acabei nutrindo uma injusta antipatia) fazia o programa dele, com direito a relincho de cavalo e tudo mais. Tinha programa de macumba e o primeiro noticiáio gay através de “Jota Lourenço Notícias”, feito por u pansexual engraçado pra cacete que dizia coisas do tipo “olha, eu não invadi a rádio. Fui convidado! Sou bicha louca mas não sou indiscreto”. E caia na gargalhada. Nós também. Marcos e Jorge pediram demissão. Logo em seguida, eu saí e fui trabalhar na Tupi AM, como estagiário do jornalismo fazendo flashes ao vivo no super ouvido “Tupi, amigo total”, nos programas de Paulo Lopes e Paulo Barbosa. Da Tupi, em 1975, fui para a melhor emissora de jornalismo do Brasil, a Rádio Jornal do Brasil e segui em frente.

Uma palavra para Jorge Davidson: gratidão. Ele e Marcos Kilzer foram mestres, amigos e me ajudaram muitíssimo. Só de relembrar esse momento, sinto um nó na garganta dos tempos em que éramos muito felizes e sabíamos disso.

One thought on “Aprendi com Jorge Davidson que rádio não é toca-discos

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